o movimento e eu

Tenho pensado muito na minha vida, nas minhas escolhas, no tempo, no futuro...
Tenho pensado muito no meu presente, no significado da Mocidade Espírita hoje na minha vida e no próprio movimento de mocidade... Significado para o meu movimento intimo...
Quando entrei na mocidade, não sabia muito bem o que eu estava fazendo, mas sentia uma força que me impelia a ir todos os domingos, das 10h15 às 12h, sem falta, na Mocidade Espírita Renascença. Demorei muitos anos para perceber o quanto eu gostava de lá.
Minha dificuldade era grande, pois todos já se conheciam há muito tempo, eram bem amigos, e, na maioria, bem expansivos e eu, apenas uma adolescente extremamente tímida e assustada. Quase morri na primeira vez que tive que fazer a explicação do evangelho.
Alguns meses depois do meu ingresso, um tal Edenilson, que era uma coisa chamado assessor, que também era da minha cidade, foi nos convidar para uma tal de Comenoesp, numa cidade chamada Ilha Solteira. Estávamos, então, em 1995. Na hora, meu coração bateu forte, acelerou, mas, precisava ter 1 ano de mocidade e eu não tinha. Se fosse hoje eu iria conversar, mas, naquela época, fui para casa engasgada, sem coragem pra dizer nada. Ah, esqueci de mencionar que quem me levou para mocidade foi uma colega de classe, chamada Daiane, a quem sou grata até hoje. Eu já freqüentava o mesmo centro que ela, mas, como eu já disse, era tímida demais para aparecer em outro horário, naquela imensidão que um dia foi o meu lar.
Em outubro do mesmo ano houve, na cidade vizinha à minha, uma tal de 2a prévia de outro evento com nome complicado: Comjesp. Ah, era do lado de casa, então eu fui. Foi muita gente de Birigui, inclusive ex-colegas da outra escola, que iam numa outra mocidade. Chegando lá, a Daia já tratou de me apresentar para uma galera, que era a galera dela, e que, mais tarde, bem mais tarde, tornou-se a minha também. Eles eram sede, eram engraçados, e tinham a minha idade. Eu não estava acostumada com tanto carinho, era tudo muito estranho, mas consegui fazer amizade com dois moços de Marília que, como eu, estavam em fase de vestibular. Cada um conseguiu o que queria na época. Ah, trocávamos cartas. Sim, cartas, com selos, carteiro e tudo mais. Tempos bons os das cartas. Era tão gostoso recebe-las, ir conhecendo as pessoas pelas palavras, pela letra, pelos borrões das lágrimas de saudade. Elas demoravam para ir e vir e talvez isso as tornasse ainda mais preciosas.
No ano seguinte, fui para essa tal de Comjesp. Era a 6a, em Franca. Eu, ainda tímida, mal conseguia falar o meu nome a minha cidade sem querer chorar. E quando o estudo acabava e tinha que ir ao páteo, era uma tortura, pois tinha medo de que meus colegas não tivessem saído. E, falo apenas das pessoas de Birigui, do meu irmão, que foi importantíssimo nessa fase, e um ou outro que estava conosco no ônibus. Éramos, nós, da 4a, um grupo fechado. Fechado no sentido de unido, de caloroso e de bagunceiro. Muuuuuuuuuuuuuito bagunceiro. Claro, entre eles estavam todos os que, em alguns anos, tornar-se-iam meus grandes amigos. Queríamos tocar até o amanhecer, invadimos o palco dizendo “Franca valeu, foi, foi um tesão”, desobedecíamos o assessor, e, ainda, no final, os meninos fizeram a esquete “A Caminho da Luz”, que prefiro nem comentar.
Aquele evento foi tão intenso e deixou em mim marcas tão fortes, que ecoaram e ecoam até hoje. Sinto cheiros, sons, sinto a força do que senti naquele dia. Aquele evento mudou a minha trajetória na mocidade e na terra.
Por muito tempo, ainda, continuei sendo a adolescente tímida, com baixa auto-estima, vergonhosa, entendiada, mas, sempre, sempre, ajudei em tudo, participei das reuniões, trabalhei na casa. Era feliz. Não bagunçava e me tornei uma excelente aluna na escola. Ah, na verdade, era a melhor. Em 97 a Daia me chamou para ir a um acampamento de carnaval. Meu pai não deixou. E, mais um ano de deslocamento e alegrias passou.
Engraçado lembrar agora. Lembro que eu gostava muito de ir e não faltava em uma reunião de mocidade e nenhum encontro. Nunca faltava mesmo. Só para prestar vestibular. E, ao mesmo tempo que tinha vergonha de um monte de coisas, adorava. Sofria quando meus amigos não estavam na mesma sala, ou no páteo comigo, mas, tinha algo, algo que só com o tempo eu descobri, que me impelia para ali. Ah, e tinha carinho, tinha música, tinha estudo, e muita comida gostosa. Lembro da geléia de figo, da 1a prévia de Garça, em 1997. Meu Deus, que maravilha!
Mas, o ano seguinte foi um dos mais intensos na minha vida. Ainda em 97 fiz amizade com uma garota, Kika. Isso foi no dia do meu aniversário. Ela foi muito especial na minha existência e me ajudou a começar a gostar de mim. Um anjo... Literalmente, um anjo.
Já no comecinho de 98, na 3a prévia, em Jaú, o Edenilson, ainda assessor (e seria ainda por mais 2 anos), nos dividiu pelas regiões e saí de lá como secretária administrativa do DM-R Araçatuba, o mais tradicional da assessoria. Meu irmão era secretário de doutrina, o Fábio, amigo querido que sumiu no mundo e quem eu não soube amar como merecia, secretário de divulgação, e o gordinho, diretor. Ah, o gordinho era o tal amigo da Daia, com quem eu conversei na 1a prévia e que me chamou para ir ao bendito acampamento de carnaval.
Logo depois disso e com meu irmão no movimento, meu pai permitiu que eu fosse ao acampamento. Foi incrível. Não há como descrever o clima, as brincadeiras espontâneas, as tradições, e quantos afetos nasceram daquela experiência. Eis as pessoas que citei no início do texto. Essas pessoas, que nos encontros eram os ditos mais “populares” e que também eram trabalhadores assíduos do movimento, eram divertidas, engraçadas e, sobretudo, amigas. Eram os “incontŕaveis”, cujo título eu invejei por muito tempo. Eu sentia que tinha uma família, e tinha mesmo. Embora a vida tenha feito com que cada um de nós tomasse um rumo diferente e, por algumas vezes, estivéssemos tão perto e tão longe, ainda os amo e sou grata pelo acolhimento: Henrique, Batavo Gordinho, Alexis, Marvin... são os que mais convivi.
O Gordinho tornou-se meu diretor e me ensinou o que era DM. O Henrique, por muitos anos, foi meu mentor, meu exemplo, meu espelho. Acho que ele nem sabe disso... O Alexis sempre foi um cara que eu admirei, inteligente, até demais!!! Mas isso as vezes atrapalhava. Com o Batavo, dividi a pior dor que senti na minha existência atual, quando a Kika desencarnou, poucos meses depois, e o Marvin permaneceu e permanece na minha vida, amigo querido, psicólogo, cuja família eu também amo. Edenilson foi incontrável sem nunca ter sido foi meu exemplo de líder nas experiências que viria a ter anos mais tarde, com as quais nunca imaginei.
98 foi crucial, também, pois aconteceram, além do acampa e do desencarne da kika, mais 2 coisas. A minha primeira monitoria e a mudança para Londrina. Bom, tive que monitorar, uma vez que os estudos eram separados por regional e, como secretária, precisava participar. Foi lindo. Nesse contexto conheci algumas pessoas importantes, mas vou destacar três: Andréia, de Jaú, exemplo de organização, de trabalho, de eficiência. Para mim, por muito tempo ela foi a melhor diretora regional que a 4a já teve. Robson, que tornou-se um amigo querido, com toda sua família. E a Jane. Jane, minha querida, que mudou a história da 4a assessoria, e, conseqüentemente, a minha. Minha amiga, mãe, madrinha, irmã... Como senti falta em cada uma das vezes que nos despedimos dela na sua “ultima” comenoesp que demorou para chegar, mas que chegou (será?).
Bom, fui para Londrina estudar, mas nunca estive em Londrina de fato. Sempre me mantive grudada no telefone, na internet e, é fato, eu sabia de tudo que acontecia no movimento e buscava participar ao máximo. Nessa experiência, morando fora e sem dinheiro, aprendi a desenvolver outra coisa: a vontade. Meus Deus, como ela movimenta mesmo as circunstâncias Não vou contar aqui cada carona que consegui, cada bico que me serviu de recurso ou cada amigo que me ajudou. Eu quis, eu consegui. Fiz a escolha de continuar no movimento, mesmos estando longe e sem dinheiro. Consegui. Faltei em uma única prévia, pois tinha meu TCC para fazer. Mas, comia arroz com polenta para ter grana pra viagem, para monitorar a Comjesp. Ah, de novo ela aí. Passaram então 5 anos... É, 5 anos...
Monitorar a Comjesp de Ribeirão foi outro marco em minha vida, outro divisor de águas. Com ela, veio a tal da vontade, e a integração do pessoal de Caminheiros. Eu chorava ao telefone dizendo que não teria dinheiro para ir às reuniões, que talvez nem fosse ao encontro. Lucas e Marlete sempre diziam que tudo ia dar certo. No dia do encontro, aliás, no último dia, na reunião de monitores, eu só chorava, alias, quem ali não só chorava??? E o Lucas me lembrou dessa fala. Anos depois, eles foram o recurso material para eu viajar, continuar a participar Eles e um cara que viajava todo fim de semana de Londrina para Prudente e não cobrava nada... Era o cara das batatas. Olha a vontade aí arregimentando recursos.
Me formei sem nunca ter estado em Londrina. Fiz amigos lá sim, que amo e trago comigo até hoje, mas eles também sabem que eu nunca estive tão lá. No dia que eu fui para Birigui, havia uma reunião em Marília. Cheguei, descarreguei a mudança, após um dia cheio, carro quebrado, pós colação de grau, despedidas, esperanças, tomei um banho e fui com o Edenilson para a reunião.
Nesse dia começou a minha crise.
Ah, esqueci de dizer que de menina tímida, me tornei alguém conhecida por uma alegria expansiva e contagiante, faladora, que cantava, brincava, ria, dava bafão, cheia de amigos, sempre rodeada de pessoas, e consegui dar muito amor.
Mas, com a formatura, a minha primeira crise. Não queria ser mais tão alegre e queria ter direito aos meus dias de bode. Revoltei-me comigo mesma pelas escolhas que fiz e por não ter curtido a faculdade e meus amigos. Cheguei a faltar em prova para ir em encontro... Enfim, pensei em sair, me afastar e me dei até a Comenoesp de 2003 (já era fevereiro) para pensar. Lembro da Fran, amiga de Prudente, falando... Espera até a comenoesp.
Beleza, esperei. Mal sabia eu que, depois daquilo, seria impossível desistir.
Novamente o pessoal de Caminheiros estava conosco e, por intermédio de uma respeitada e queria médium, tivemos contato com a espiritualidade amiga. Naquela 1a reunião, logo após a comeno, tudo fez sentindo. Entendi o que era aquela força que me arrastava para a mocidade e para os eventos e como tudo foi cuidado pela própria espiritualidade para chegarmos até ali. Muita coisa fez realmente sentindo...
Mas, a crise nunca mais foi embora. Contudo, observando agora, talvez seja a crise pelo amadurecimento e não pelo movimento, pois era algo meu, algo dentro de mim, uma autocritica muito grande e um desejo constante de mudança...
E o tempo passou, assumi mais responsabilidades, fiz mais amigos dentro e fora da assessoria. Vou citar 3, neste momento, todos de Rio Preto: Pri, Regiane e Rodrigo. Posso dizer que o Rodrigo é alguém cujo sentimento que tenho não consigo explicar. Certante não é dessa existência, pois eu já o conhecia sem conhece-lo de verdade. É alguem cujo tempo, a sinceridade e a transparência me permitiram que saísse da esfera do DM para entrar na minha vida pessoal (como alguns acima, mas com ele é especial, pois trabalhamos juntos por 2 gestões).
E o tempo passou, fiz mais amigos, mais amigos e mais amigos...
Daí, vou falar do último divisor de águas , da minha vida até agora, a Comjesp de Rio Claro. Estamos em 2006.Puxa, já se passaram dez anos! Sou uma profissional formada, que não gosta da profissão, com vontade de mudança, querendo coisas na minha pessoal e com uma mancha no estranha no ombro. Essa monitoria foi incrível vejo quantos dos atuais líderes do DM hoje surgiram nela ou nela estavam. Conheci gente, reconheci, reencontrei, desfiz más impressões, e fiz outras também. De Rio Claro, saí pronta para mudar de emprego, procurar um médico, tornei-me assessora e comecei uma história tão difícil e tão misturada com o DM como minha própria vida.
A Comjesp de Rio Claro mudou minha existência, pois, ao assumir a assessoria, junto com a Fabi, fui obrigada a aprender o que hoje tenho de sobra: CORAGEM. Alguns contatos fora da 4a eram difíceis e precisei aprender a me defender, e sentia que tinha que defender os meus também. ME tornei mãe, pai, tia, professora, chefa, amiga, patroa, enfim... Aprendi a desenvolver a responsabilidade, a falar quando tenho vontade, a brigar se for preciso. Claro que errei e extrapolei muitas vezes, mas estava aprendendo. O Edenilson foi meu exemplo de assessor, o Guto, de líder. Sou grata a ambos por me permitirem aprender com eles. Hoje, sinto que os superei. Não porque sou melhor, porque nenhum é melhor que o outro, mas porque hoje não os olho de baixo, nem lhes tenho medo, são amigos.
As crises continuaram, horas por ver que algumas pessoas, incluindo a mim, tem o discurso cristão apenas no verbo, ora por me sentir traída por quem eu abrigo e confio, ora por me sentir perseguida, injustiçada, julgada com o evangelho (que deveria ser de amor). Esses momentos de crise ainda existem e me fazem querer desistir, pois sei que posso ser espírita em casa, no trabalho, na escola, no trânsito, no condomínio, na rua, sem precisar do movimento.
Mas, ainda sinto que tenho coisas a fazer, a contribuir, por gratidão, por amor à causa, aos jovens e a mim mesma. É, a crise não passou, apenas foi mudando como eu mesma mudei. Mudou a causa, mudou o foco, mas elas estão aí, vibrando a cada decepção, desapontamento, e sei que mais dificuldades virão, afinal, é ano de Comjesp e a espiritualidade está alvoroçada. Eu mudei, cresci, conheci outras pessoas, refiz, reforcei e desfiz algumas imagens e hoje encontro-me longe da minha base querida, minha 4a assessoria, amando pessoas dos outros trés quartos de estado... Vim para São Paulo, após, por anos, recusar-me a sair da 4a, para estudar, para encontrar comigo mesma nesta jornada que acredito que será a última dentro do movimento.
Quis recordar e dividir em algumas (muitas) linhas um pouco do que foram esses anos todos, o que eles mudam em mim, como o movimento me ajudou e como, nesse tempo, eu amei e fui amada...
Para finalizar, vou escrever algumas palavras que fazem sentindo para uns, para outros, para minguem, mas que fazem muito para mim, cenas, uma vez que o filme todo completo está no meu coração:
Nilsão, Sr Au, groselha de Jaú, Carlão e seu violão, a lua de Marília, ping-pong e piscina de bolinha no bezerra, pipoca, evangelhos grudados na parede e no chão, “só pode haver um”, cachorro quente seguido de grito de dor, porpeta de soja, Ana person, moacyr camargo e plínio oliveira, crachá em forma de raio, balada na comeno, maquina de suco de jaú, copinhos coloridos, rojão a meia noite, átomo de magnésio, pão caseiro com serenata, assessoretes, “leitinho quentinho” e “etiquetinha”, galak e diamante negro, “vim vos lembrar do compromisso que assumiram (...)”, acordar com violino, shopping de jaú, maca da carol, 7 pessoas em 4 colchões, tanguinha de oncinha, osni, reuniões “de portas fechadas”, pastel de 7 queijos, carro sem gasolina, peneus furados (muitos), chá com leite, corações liláses.

1 comentários:



Lygia Gil disse...

A gente faz e sente o amor